O comandante Adolfo, soube certeiramente descrever em palavras, um sentimento único, que é o momento do vôo solo, diretamente de Arthur Nogueiras, um relato pra lá de especial.
Emoção do vôo solo.
Hoje, dia 11/04/2008, uma sexta feira, exatamente às 8:02 h. estava eu lá no ponto de espera da cabeceira 16 do aeroclube de Amarais. Eu e Deus, nós dois lá sentadinhos no Cockpit do PT KLY. Checo os comandos, avanço a manete até o motor atingir 1.700 RPM, testo a mistura por duas vezes, depois o ar quente e, finalmente, os magnetos. Final livre, perna base livre, pego o fone e falo "Coordenação Amarais, o KLY vai alinhar e decolar de imediato da 16". Alinho, coloco o transponder em Alt, ligo os faróis de pouso, dou "full power", o KLY começa a rolar, dou aquela batidinha básica no velocímetro, e ele marca 40 milhas. O avião vai ganhando velocidade e, de repente, ele começa a balançar um pouco como que dizendo "me tire daqui, quero voar". Olho o velocímetro que marca 60 milhas, aguardo mais alguns segundos, cabro um pouco o manche e aí acontece.... O pássaro voa e ganha os céus de Campinas, S.P, nesta linda manhã de outono.
(PT-KLY)Eu, com a tranqüilidade que sempre pedi a Deus para que no meu vôo solo eu ficasse calmo e relaxado, parece que já tinha feito aquilo centenas de vezes (e acho que fiz mesmo uns 200 pousos). Mas, a experiência de ir apenas você e Deus é muiiiito boa, a sensação de liberdade, a sensação de que você está literalmente voando só quem solou sabe.
O Instrutor Demarchi havia me dito que eu poderia voar até uns 30 minutos. Aos 400 pés fiz o check padrão, aos 500 pés fiz uma curva de 90 graus à esquerda, falei no rádio "coordenação Amarais o KLM livrou o eixo de decolagem da 16". Abandonei o circuito em vôo ascendente para 3.500 pés. Lá estava eu, realizando meu sonho de menino.
Nasci em uma colônia de empregados da Usina Ester, município de Cosmópolis SP, e quando eu tinha por volta de 5 a 6 anos, de vez em quando, um aviãozinho "teco-teco" voava baixo por lá e o piloto abanava as mãos e as asas, como que me dizendo " eu vôo e você não voa."
Aquilo gravou na minha mente, fui crescendo, e sempre alimentando o sonho de voar. Em 1986 veio o plano Cruzado I, comecei fazer o curso no aeroclube de Amarais mas, logo depois que comecei, veio o Plano Cruzado II e todo o sonho caiu por terra, pois, lá no fundo do coração, sempre alimentei o sonho de Ícaro.
No ano passado, acredito que em Julho, veio um circo na minha cidade e, em um número, um homem com uma corda e um véu, voou. Isto mesmo, ele voava em círculos dependurado naquela corda. Aquilo mexeu com minha cabeça. Despertou novamente meu sonho. Chegando em casa, fui procurar na Internet sobre o curso teórico para piloto privado e descobri que não seria necessário freqüentar uma escola. Em poucos dias, comprei os materiais didáticos e estudei tudo sozinho em casa. Prestei a banca da Anac, fiquei de segunda época de regulamentos e, finalmente, fui aprovado em Dezembro.
Mas, voltando ao meu vôo solo, estava eu lá na vertical do Shopping Dom Pedro, minha cabeça pensava tantas coisas, inclusive no meu avô materno que, na década de 40, iniciou o curso de PP em Amarais, mas não chegou a terminar. Pensei em meu pai, na minha mãe e no meu sogro. Como eles gostariam de estar vivendo este momento junto comigo...
Observando as paisagens lá no horizonte, via-se que o céu era a testemunha de tudo aquilo que estava acontecendo comigo. Clima ameno, céu azul, típicos de uma linda manhã de outono. Todo o universo conspirou para este momento mágico e até os urubus, assíduos freqüentadores do circuito de Amarais, resolveram colaborar comigo indo voar para outros cantos.
Como é bom viver, como é bom sonhar e ter seu sonho realizado!
Fiquei pensando quantas pessoas haviam colaborado para que este momento chegasse. Pensei nas horas sonegadas à minha esposa Sueli, minha grande incentivadora. Horas estas que eu estava estudando para o exame teórico ou estava no aeroclube fazendo aulas. Pensei no meu neto, que com 2 anos, já fala o prefixo de meu avião "PT AZQ", nos meus filhos, que sempre me apoiaram neste desafio.
Pensei no meu primeiro vôo no GSV com o instrutor Panza, pensei no primeiro "Stol" com motor onde o Paulistinha quis entrar em parafuso. Eta susto! Por falar no Panza, ele foi o instrutor que mais voou comigo. Lembro-me de suas "duras", de suas broncas e até de um certo "terrorismo" que, em alguns momentos, confesso fiquei pensando em desistir de ser piloto. Hoje, estou muito agradecido e consciente de que tudo que aprendi com ele me fará um piloto que voa com segurança.
Raphael, que tive a honra de ser seu primeiro aluno,era tranqüilo, calmo, sempre tudo "maravilha" .
Diniz, também colaborou. Até, em alguns momentos de sua falta de paciência, fez -me aprender. Ele dizia "seu Adolfo, o senhor não está vendo que aqui na perna do vento. O senhor está indo em cima da pista. Se uma vez errou, na próxima tem que saber que o vento está te empurrando acima da pista."
Stevanini, instrutor muito lúcido, calmo, sempre dizendo " é isto aí, seu Adolfo" me ensinou muito.
Seu Zequinha, que me deu duas ou três instruções é um senhor muito calmo, experiente e disse-me palavras muito sábias sobre aviação. Com certeza, colaborou bastante para eu chegar nesta fase.
Possa, instrutor novo para mim, juntos fizemos alguns vôos. Ele me animava com seus incentivos.
Nesta semana, em uma linda manhã de outono, fiz uma aula com o Donini, que me fez ficar parado na cabeceira 16 e "fotografar o que eu via". Isto foi muito importante para mim.
Finalmente, de terça-feira para cá só voei com o Demarchi. Tinha voado com ele apenas uma aula, quando ainda voava no paulistinha e os instrutores não sabiam o que me dizer ou explicar para eu fazer a coordenação de primeiro grau correta. Acho que ele entendeu a minha cabeça e me ensinou.
Bem, nesta semana, acho que ele disse para ele mesmo "tenho que solar este "manicaca"". Na quarta passada, ele pediu para eu colocar uma almofada no acento, foi lá na frente e colocou sua bolsa no chão em várias posições para saber até onde eu a enxergava. Depois, foi lá trás e "abraçou" a cauda do KLY e abaixava e levantava para me explicar como teria que ser o comportamento do avião na hora do pouso, e, isto foi outra grande lição.
Agradeço também ao meu amigo, Comandante Ricardo Conde, que voa comigo no meu Cessna PT AZQ pelas conversas de incentivo e por acreditar que eu iria conseguir voar sozinho logo.
Bem, estou de novo no KLY e, já tendo voado uns quinze minutos, resolvi voltar. Fiz o retorno padrão para todos nós do aeroclube, perna do vento, perna base, final livre, "Coordenação Amarais KLY está na final da 16 e o pouso é completo", alinhei o avião, tirei toda potência, fiz a rampa adequada, fui arredondando, cabrando. O KLY voava paralelo à pista e logo depois resolveu pousar. Com muita tranqüilidade, o grande pássaro de metal tocou o solo. Neste momento pensei e senti que o momento esperado aconteceu e eu consegui!!!
Finalmente, quero dizer que o banho de lama que levei hoje foi o banho mais gostoso da minha vida e que este lindo dia de outono (11/04/2008) foi e está sendo muito importante para mim. Será um marco na minha vida, pois confesso que até o ano passado, eu já com 53 aninhos andava carente de desafio. Agora, é caprichar para fazer as navegações, o repasse das manobras e o check.
Um grande abraço a todos e que Deus esteja sempre conosco.
(PT-AZQ)
CMTE José Adolfo Queiroz
residindo na cidade de Artur Nogueira, região metropolitana de Campinas S.P
COMANDANTE..Receba do autor desse blog, os sinceros parabéns e agradecimentos, e na opnião pessoal, esse relato serve de propulsor nos sonhos de muita gente, leia-se á partir de mim mesmo. lembre-se, o horizonte não é o limite para quem tem um livre espirito.
Toni Diniz
4 comentários:
Prezado Cmte Adolfo.
Reli agora o texto " Um relato pra lá de especial..." de tua autoria em que narras a emoção do 1º vôo solo e também do sonho de um guri apaixonado por aviões.
O desafio, a incerteza, o medo, o coração a bater forte e depois, o desafio vencido, a meta cumprida, a certeza, a alegria e as lágrimas a escorrer de felicidade...
Aproveita bem este momento mágico e que só dependeu de ti...
Muito bonito o teu gesto de colocar em público tuas emoções. Enquanto lia eu sorria e voava junto contigo. Obrigado por este vôo.
Um grande abraço.
Carlos Guaragna.
Carlos, agradecemos a sua visita, seu comentário já foi encaminhado ao comanante Adolfo.
obrigado e volte sempre.
Toni, também parabéns por este trabalho de nos dar oportunidade de colocarmos para todos nossas idéias e emoções como um simples relato.
Um abraço.
Carlos Guaragna.
Cmte. Zé Adolfo, sou Cosmopolense e estou fazendo o cruso de PP, no máximo em um mês irei fazer meu vôo solo, não vejo a hora. E lendo essa matéria fico mais animado ainda. Conheci o Cmte. José Adolfo no aeroclube de Amarais e aproveito para dar os parabéns por ter alcançado seus objetivos na aviação!! Quero parabenizar também o autor deste magnifico Blog!!
Marcio Duó
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