Senhores e Senhoras, este texto extrai com devida autorização do CMTE Mike Buser da cessão "cock-pit" no site da ABUL, lá podemos encontrar muita coisa boa, o então web design Murilo, tem colocado a mostra alguns relatos, experiências , contos e crônicas que vão enriquecendo a cultura e o conhecimento do nosso meio aeronáutico, um trabalho verdadeiramente de valor imensurável junto a ABUL.
Não é de se espantar pela qualidade tão literária do comandante Mike, desde que me conheço por gente aficcionado pela aviação, tenho ouvido muitas coisas boas desse guru da aviação ultralevista, o que teremos a oportunidade de ler agora, será uma amostra do contexto literário em que descrevi. já solicitei dele novas oportunidades para poder colocar aqui algumas de suas viagens pelo mundo a fora, será único no sentido da postagem e muito bom para esse espaço, enquanto isso vamos decolando com esse texto!
Toni Diniz.
Por que nós voamos?
Mike Buser
A pergunta da aviadora inglesa Beryl Markham, que é título de um dos capítulos do seu belo livro "West with the night", me levou a reunir algumas histórias de gente que usou a aviação ou a literatura para realizar seus sonhos.
O puro prazer de voar pede no seu retorno ao chão o redesenho dessa experiência. Fiz aqui o contrário, tentando colocar ao lado das minhas descobertas no vôo, os rabiscos poderosos de outros que de uma forma aérea, ou terrestre, ou marítima, já haviam passado por lá.
O RIO DA SOLIDÃO
Decolei de Ubatuba pilotando o ultraleve Pelican PU SSS, para o interior do Brasil.Queria conhecer a região do Araguaia, a ilha do Bananal, e na preparação da viagem minha mulher, que mantém uma biblioteca comunitária no Lázaro me entregou um livro dizendo- isso acho que vai te interessar.
"O Rio da Solidão" trata da excursão que Willy Aureli fez em 1952 para a região central do país.
Washington de Oliveira, farmacêutico dos tempos antigos de Ubatuba, conta em seu livro "Ubatuba" que Willy em 1930 viera a Ubatuba para cobrir como repórter da "Folha da Noite" uma fuga de dois presidiários da Ilha Anchieta. Um havia sido recuperado, e outro comido por um tubarão.
Chegando de Santos em Ubatuba com o vapor Pirahi, que seguia ao Rio de Janeiro, Willy se apaixonou pela região e fez uma serie de reportagens sobre o presídio, que estava cheio por conta do esvaziamento dos presídios da capital, que deveriam receber os derrotados do PRP na revolução de 30,e também fez outra reportagem sobre a sua volta à capital , subindo a serra do Mar rumo ao Vale do Paraíba pela antiga estrada real.
Willi não esteve envolvido diretamente com a aviação, mas tinha um espírito explorador, e fez várias expedições para a região central do pais por via fluvial após vencer o primeiro tramo de avião , e escreveu vários livros.
Neste livro Willy narra seu contato com os índios, e o filme que fez tendo os índios como artistas, com um roteiro inventado na hora, e películas que iriam ser reveladas nos Estados Unidos. Tinha também a proposta de descobrir se o rio da Solidão, afluente do Tapirapés, este por sua vez, afluente do Araguaia se este seria um braço do rio das Mortes, que assim formaria uma nova ilha fluvial, oposta à ilha do Bananal.
A viagem se desenrola com encontros de sucuris, veados, onças,jacarés, queixadas, antas, capivaras, macacos..., um reencontro com índios que haviam matado conhecidos seus e uma recusa a participar de uma expedição para acertar contas com esses Caiapós e eventualmente achar o desaparecido coronel Fawcett, explorador britânico que sumira em expedição à serra do Roncador, no alto Xingu.
A ligação com o rio das Mortes não se confirma e Willy retorna à "babel piratiningana".
MONÇÕES
Retornando ao século 21, e à nacela do PU SSS, fiz uma viagem ao pantanal. Desta vez me encostei no livro "Monções", de Sergio Buarque de Holanda, que conta o ciclo de penetração no interior brasileiro a partir de São Paulo nos séculos 17 e 18, com destino às minas de ouro de Cuiabá por via fluvial, em viagem que demorava até um ano.
Me interessou sobretudo a região de Camapuã, planície divisora de águas, aonde as expedições deixavam a bacia do Paraná , atravessavam a pé a região de Camapuã, descendo então o rio Coxim rumo ao Pantanal, e depois Cuiabá.
Sendo uma planície que separa duas bacias hidrográficas, funciona de forma semelhante na história, à região do Casiquiare,3° 08’N 65° 52’W, que une as bacias amazônica e a do Orenoco, entre o Brasil e a Venezuela, com a diferença que em Camapuã,19°33s 54°03W as duas bacias não estão interligadas por canal.
A interligação das bacias pelo Casiquiare foi investigada por Alexander Von Humboldt, em 1799, em sua viagem pelo norte da América do Sul, assim como Sergio Buarque de Holanda recuperou para a história o trajeto das Monções.
ROTEIRO DO TOCANTINS
Ainda tendo como tema um rio, o livro “Roteiro do Tocantins” é o registro da viagem empreendida por Lysias Rodrigues, para determinar a criação de aeródromos que facilitassem a linha Miami- Buenos Aires da Pan American Airways, para evitar o contorno pela costa brasileira.
A expedição terrestre e fluvial partiu em agosto de 1931 de trem, do Rio para São Paulo, e depois para Ipameri, fim de linha férrea. De lá seguiram de carro até Formosa, a nordeste de Brasília, e São João da Aliança. Atravessaram a cavalo a chapada dos veadeiros para Cavalcante ,seguindo para Palma, na confluência do rio Palma com o Paraná. De lá, desceram em barco até Peixe, e seguiram pelo Tocantins abaixo, chegando a Belém, em 9 de outubro. Voltaram ao Rio de Janeiro a bordo do "Comodore" da Panair.
Ao longo da rota Lysias foi determinando a construção de aeródromos para que pudesse ser feita a interligação aérea.
Foi só em 1935, a bordo de um Waco C35 que Lysias voou a rota, junto com seu mecânico. Decolando do campo de Marte,pousaram em Formosa, Palma, Porto Nacional, Piabanha, Pedro Afonso, Carolina, Marabá e Belém, retornando pela mesma rota a São Paulo e Rio.
Estava aberta a rota aérea pelo interior do país.
Refiz a bordo do PU-SSS a parte setentrional desta rota a partir de Belém, enveredando pelo Araguaia,na confluência dos dois rios, com a intenção de sobrevoar Serra Pelada voltando para a rota original, rumo à chapada dos Veadeiros.
Fizemos depois, Fernando Tavares e eu uma viagem pelo litoral rumo a Fernando de Noronha, e depois Belém e Macapá. Dali subimos o rio Amazonas até Manaus, em seguida subimos o Madeira até Porto Velho, antes de retornar a Ubatuba.
A VIAGEM PELA COSTA ARGENTINA DO BEAGLE
Em seguida fizemos um vôo a Ushuaia, retornando pelas vertentes a leste dos Andes até Malargue, e daí depois de um sobrevôo de Lãs Leñas, voltamos a Ubatuba.
Charles Darwin escreveu um belo diário de sua viagem a bordo do Beagle, e pudemos enriquecer as visões das planícies patagonicas com as suas incisivas e inovadoras observações sobre geologia, e sobre seus contatos com os Fueguinos.
O Beagle levou de volta à terra do Fogo três fueguinos que haviam sido levados à Inglaterra em viagem anterior do capitão FitzRoy .
Na segunda descida ao sul do Beagle, Darwin subiu o rio Negro, passando por Carmen de Patagones, vila que foi alvo de uma tentativa frustrada de invasão pela Marinha do Brasil 5 anos antes, em 1827, na guerra contra Argentina.
Fala-se que em 1960 o governo brasileiro tentou reaver as bandeiras do Brasil que ficaram presas na igrela Matriz da cidade, em troca de asfaltamento de ruas, mas a troca não se concretizou.
O trabalho de coletar fósseis de Darwin o levou a questionar a falta dos mesmos animais grandes vivos, e a falta de condições para alimentar esses animais. O que teria causado a extinção, e por que os fósseis estavam colocados sob camadas?
Darwin esteve também em Puerto Deseado e San Julian, e fez uma expedição em barco pequeno para subir o rio Santa Cruz. Na seqüência o Beagle retornou ao antigo acampamento dos fueguinos , na baia Woolia, ao sul de Ushuaia, encontrando-o destroçado e vazio. O sonho antropológico de alavancar a cultura dos fueguinos, de FitzRoy, chegava ao fim.
O Beagle prosseguiu então sua viagem para o Pacifico, subindo a costa do Chile, Peru, e Equador, culminando com a visita a Galapagos, onde todas as investigações de Darwin tiveram o seu ápice.
O capitão da marinha chilena Christian de Bonnafos conta no site www.caphorniers.cl, a sua descoberta do marco no topo da ilha Horn, onde após escavação achou vários pertences lá deixados por Fitz-Roy.Christian fora lá de helicóptero, dando apoio à construção do memorial ao marinheiro desconhecido. Depois, em pesquisa dos diários de viagem ele encontrou o relato de Fitz-Roy sobre a construção de um monólito, e o enterro de objetos que Christian havia encontrado.
O CONDOR DE PRATA SOBRE A TERRA DO FOGO
Em Ushuaia,na antiga prisão que foi o início da colonização de Ushuaia, e que foi transformada no interessante Museu do Fim do Mundo, onde eu já havia comprado o resumo argentino da viagem de Darwin, comprei o livro de Gunther Plüschow, um piloto alemão que defendera a fortaleza de Tsingtao fazendo vôos de reconhecimento, possessão alemã na China até a primeira guerra mundial.
Com a invasão japonesa da fortaleza ele fugiu para a China, atravessou os EUA, foi preso e escapou da Inglaterra, e através da Holanda conseguiu chegar à Alemanha, realistando –se na Força aérea.,
Antes da segunda guerra , em 1927 ele construiu um veleiro, e despachou um hidroavião desmontado, por navio para Punta Arenas. Velejou com o "Feuerland" da Alemanha ao estreito de Magalhães, parando no Brasil, e em Punta Arenas depois de montar o hidroavião, um Heinkel HD24, fez o primeiro vôo postal para Ushuaia.
Por 8 meses Günther Plüschow permaneceu na região fazendo vôos exploratórioscom seu mecânico, Ernst Dreblow, e com o apoio do Feuerland e sua tripulação. Em fevereiro de 1929 ele e seu mecânico foram os primeiros homens a sobrevoar o Cabo Horn, tendo decolado sob sol, e pousado no retorno sob chuva e tempestade.
Em seguida retornaram à Alemanha.
Em 1931 retomaram seus vôos na Patagônia, na região do parque Torres Del Paine, e vieram a falecer após o conserto de um flutuador rompido em um pouso em um lago. Após o conserto improvisado, conseguem decolar, mas aconteceu a ruptura de uma asa, e Gunther morre ao pular de paraquedas, que não abre, e seu co piloto Ernst Dreblow morre de hipotermia após cair no lago Rico, perto do glaciar Perito Moreno.
Fala-se que aquele marinheiro que contornou o cabo Horn uma vez, pode tomar seu rum com um pé sobre o balcão. Se duas vezes, com os dois pés. Dreblow e Plüschow fazem parte dessa turma, com todas as honras.
1421 - O ANO EM QUE A CHINA DESCOBRIU O MUNDO
Resolvemos, Fernando e eu, em 2007 fazer uma viagem, que denominamos “De Cabo a Cabo”, já que queríamos contornar a terra do Fogo, para depois, subindo as Américas, atravessar o Atlântico norte para Europa, descer até a cidade do Cabo, na África do Sul.
No ano anterior eu havia pequenizado o PU SSS perto de Quito,ao retornar de viagem ao circulo polar ártico ao tentar decolar a 9000 pés de uma pista de grama de 500m.
Fizemos esta viagem a bordo de um MXP 740nv, uma cópia do Zenith Stol feita na Colômbia, e montada no Equador, com velocidade de cruzeiro de 70 nós.
Na preparação para esta viagem um amigo me deu um livro com o sorriso de quem fornece um mapa secreto a outra pessoa.
O livro "1492, o ano em que a China descobriu o mundo", escrito por um submarinista aposentado da marinha britânica, Gavin Menzies, tem uma tese muito interessante, e ricamente defendida, que é a exploração marítima do mundo pelos chineses antes dos europeus, e de forma muito mais abrangente, a partir de 1921.
Seguindo as viagens dos almirantes chineses,o autor foi distribuindo fatos ao longo do que seria nossa rota em nossa viagem “de Cabo a Cabo”, e é claro, pelo resto do mundo também, exceto a Europa.
Quatro almirantes chineses teriam saído em expedições com veleiros enormes, de casco duplo, fazendo o levantamento cartográfico do mundo. O autor se apóia em alguns mapas europeus, que segundo ele contém mais conhecimentos do que havia na época na Europa. Estes dados teriam sido passados por um viajante, Nicollo Conti, aos navegadores ibéricos que partiram para a descoberta do novo mundo,apoiados nos registros cartográficos chineses.
O livro aponta para a questão da descoberta do estreito de Magalhães, entre dezenas de outros fatos comentados.
Põe na mão dos navegadores chineses o troféu pelo primeiro contato com a Antártida, a primeira circunavegação da Groenlândia, e mesmo a travessia do mar de Barents, da Islândia até o estreito de Bering, entre outros feitos excepcionais, e recheia o livro com fatos os mais variados.
Mas o livro cria a suspeita ao fazer os fatos se encaixarem demais aos desejos, e checando na Internet fui desagradavelmente surpreendido por várias acusações de fraude contra o autor.
Mas na categoria ficção o livro se lê bem , e fizemos nossa viagem de qualquer modo.
Também se deve dizer que uma viagem desse tamanho como a nossa acaba tomando um corpo e alma próprios, e fica complicado sujeitar o roteiro e o tempo a alguma coisa fora do itinerário previsto.
Chegamos então a Capetown, e o HCU 0028 lá está hangarado. Voltamos para o Brasil pela aviação comercial, e em Ubatuba encontrei um americano que fez uma viagem em solitário, da Flórida a Portugal, e depois ao Rio de Janeiro em um veleiro. Sabendo do meu interesse pela África, me disse-Vou voltar aos EUA e te mando um livro que você vai adorar. Ele se foi, e quando o tema já estava caindo no esquecimento veio um envelope pelo correio.
WEST WITH THE NIGHT
Ernest Hemingway conheceu Beryl Markham, a pilota e autora, e teceu rasgados elogios à ela, entre bordoadas. Ela se tornou uma personalidade nos EUA após fazer o que foi chamado da primeira travessia leste- oeste do oceano atlântico, o que também não corresponde totalmente à verdade, mas sua carreira como pilota na África foi absolutamente original, e a travessia oceanica um feito memorável.
Beryl nasceu na Inglaterra em 1902 e sua família se mudou quando ela tinha 4 anos para a África Britânica do leste, no que hoje é o Quênia, em Njoro, perto do Grande vale do Rifte.
Na sua infância costumava acompanhar os guerreiros Murani em suas saídas para a caça, depois quando seu pai se mudou para o Peru, por causa da falência de sua fazenda ,ela ficou na região só, aos 18 anos, e se tornou a primeira treinadora de cavalos diplomada do sul da Africa. Através da sua amizade com Karen Blixen, escritora dinamarquesa de cujo livro se fez o filme “Out of Africa’, Beryl conheceu o ex namorado de Blixen, o aviador Denis Finch Hatton. Através dele ela começou a pilotar, fazendo transportes de passageiro e materiais, e também localização de elefantes para estrangeiros em safáris na região.
Procurando novos horizontes, Beryl que já havia voado de Nairobi a Londres 6 vezes, 4 delas em solitário, tomou novamente o rumo da Inglaterra.
Lá, aceita o desafio de atravessar o oceano, em aeroplano especialmente construído para ela. Ela voa a partir de Abingdon em 1932, na Inglaterra, por 20 horas a 130 nós, e é obrigada a fazer uma aterrissagem forçada na Nova Escócia no Canadá, com seu Percival Vega Gull com o motor parado por congelamento dos tubos de ventilação dos tanques de gasolina.De lá Beryl segue a Nova York, onde é aclamada como heroína, e vira uma personalidade publica.
Casa-se então com o escritor Raoul Schumacher, e lança o livro ‘West with the night”, tão elogiado por Hemingway.
O livro tem enorme sucesso em sua época, e depois cai no esquecimento.
A autoria é questionada, e há fortes indícios que Raoul teria escrito aquilo que Markham viveu.
Outra suposição é que Antoine de Saint Exupéry, que também foi seu namorado, teria sido uma fonte de inspiração
Mas se assim foi,de uma maneira ou de outra, aconteceu uma soma de talentos, pois as aventuras de Beryl Markham são fora de série, para a época e para uma mulher da sua época, e a descrição delas no livro é literatura das mais refinadas.
Beryl Markham retornou ao Quênia em 1952 e morreu em Nairobi em 1986
FONTES
Livros:
1- Rio da Solidão-autor Willy Aureli-Ed. Cupolo
2- Monções autor Sergio Buarque de Holanda editora Brasiliense
3- Roteiro do Tocantins-Lysias A. Rodrigues- Revista Aeronáutica Editora
4- Darwin na Patagônia – Marcelo Becachecci
5- Silberkondor über Feuerland-Mit segelkutter und Flugzeug ins Reich meiner Träume U http://www.allstar.fiu.edu/aero/pluschow.htm Ullstein, Berlin
6- 1492- O ano em que a China descobriu o mundo – Gavin Menzies
7- West with the night Beryl Markham - North Point Press
Sites complementares:
http://www.allstar.fiu.edu/aero/pluschow.htm
www.caphorniers.cl
www.aboutdarwin.com
Mike Buser,57 anos, é piloto CPR, com viagens feitas para Fernando de Noronha,Ushuaia, Puerto Montt, Tuktoyaktuk, e Capetown, e outras tantas por fazer
quarta-feira, 23 de abril de 2008
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