Alma livre...
Os raios de sol ainda não são o suficiente para aquecer a madrugada fria de uma sexta-feira de inverno, mas o ranger das portas do hangar rompe o silêncio no pequeno sítio de vôo, um orvalho frio e denso pesa-se ao respirar, a pequena luz amarela sob a cabeça ainda acesa, ilumina uma pintura fosca num tom azul céu, na inscrição “hangar 1”.
As portas se abrem, o breu denso da noite envolve o que se parece vazio e, de repente, passa do inexistente ao cheio, “click” uma luz se acendeu...depois outra...e mais outra..os olhos se enchem de quem vê da porta, uma visão metálica e ao mesmo tempo um show de cores confundem os olhos, aves de aço...aves de composite, aves de madeira repousam em seus ninhos, num canto alguém já arrasta um garfo vermelho e da inércia a ave é retirada, toma seu lugar frente ao ninho das aves, imponente, como em uma visão onírica o sol vai aos poucos mostrando-se no horizonte, ainda tênue e tímido, entre as folhas vai surgindo devagar a luz natural, deixando quase que imperceptível a pequena luminária em forma de sino em cima da inscrição azul que agora pode-se ler “hangar 1 bons vôos”.
Depois do som dos cadeados das portas, no solavanco da abertura delas, o lugar é invadido por canto de pássaros que voam livres de um lado para outro, no balé de sua coordenação de asas, e o presente é certo, a noite se foi e o clima pouco mais aquecido anuncia um dia de céu azul infinito. No céu uma nuvem dá o tom de um quadro figurativo de imensa expressão, metaforicamente como se o pintor, o grande Criador, tivesse arrastado um pincel de forma rápida, dando o toque de branco no imenso azul. A força aplicada às pernas para o embarque é regada pelo mesmo sangue que agora corre com muita adrenalina nas veias, olhando a volta um mundo fica lá fora, sabendo que em breve estará nos pés, o ruído forte do motor ecoa de fora para dentro, a porta semi-aberta, agora dança a favor do vento proporcionado pelo enorme ventilador. A ave agora ocupada segue no seu lento andar sobre a grama baixa ainda úmida, deixando talvez eufóricas as aves que antes ocupavam a borda do trajeto. Um embalo... uma virada de 180 graus, estamos agora frente a uma reta verde, dos lados os componentes da vida normal, assistem, de forma harmoniosa, as mãos firmes vão à frente e a resposta é imediata, inicialmente em descompasso...logo o ruído torna-se um ronco firme e a harmonia auditiva toma conta dessa corrida quase selvagem, aos poucos toma mais força e velocidade, levanta o nariz de leve...quando vemos, estamos fluindo de um espaço para outro, em um movimento assimétrico, lançados ao devaneio de um vôo cada vez mais alto, o mundo lá embaixo torna-se pequeno, aqui dentro a observação é sempre um comentário acompanhado de um sorriso. De um lado um riacho no seu caminho segue contornando; de outro, a colina que antes era tão íngreme agora um pequeno monte verde, o vôo proporciona paz, aciona os mais belos instintos de cada um, eleva nosso espírito, que navega pelos céus, livres e certos. Aos poucos fica real a necessidade da volta.
O grande pássaro de aço agora vai devagar até tocar no chão, o ruído da borracha é certo, estamos em terra firme. Do lado de fora, o calor do motor forma o vapor e aquele pequeno banco de madeira torto, é o ponto de encontro onde cada segundo do vôo é lembrado com louvor, enquanto a alma saboreia a lembrança, o coração arquiteta um novo momento de se sentir livre.
Antoniel Diniz.
quinta-feira, 27 de março de 2008
Alma livre..
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